Jimi Hendrix - Am I Blue [2004]

Eu ia incrementar este post falando um pouco do meu grande ídolo e herói Jimi Hendrix, afinal na guitarra ele é “o cara” e não tem para Eric Clapton, Joe Satriani, John McLaughlin, Jeff Beck, Yngwie Malmsteen, Pat Metheny, Eddie Van Halen, Scott Henderson, Jimmy Page, John Scofield… Venha quem vier, todos se curvam diante do mestre, não só reconhecendo a sua excelência, mas também se deixando influenciar por ele. Um fato até curioso levando-se em conta que Jimi não sabia sequer ler uma cifra ou nota de uma partitura, o que me faz acreditar que técnica e conhecimento ajudam, mas sem talento e sentimento não se vai a lugar algum. Jimi tinha talento de sobra além de ser puro sentimento, basta vê-lo tocando e notamos que a guitarra se torna parte de seu corpo respondendo muito mais a sua mente e coração do que a ação dos seus dedos. Então quando eu sentei para escrever entrei em cheque: o que falar sobre ele, se já disseram quase tudo e sua carreira é mais que conhecida? Aí me veio à mente a triste história da sua infância contada pela jornalista Sharon Lawrence, amiga e confidente de Hendrix, no primeiro capítulo do seu livro, “Jimi Hendrix: A Dramática História de uma Lenda do Rock”, cuja narrativa nos faz chorar de tão triste, mas é rica em detalhes e curiosidades sobre a infância do maior guitarrista de todos os tempos. Resolvi então transcrever o capítulo aqui. Aliás o lançamento (editora Zahar) é recente e pode ser encontrado com facilidade nas livrarias por aí.
Ela gostava bastante de diversão. Mas não houve muita diversão em sua vida curta e infeliz. Lucille Jeter jogava para longe o sombrio véu de ansiedades que perturbava todos os adultos ao seu redor, durante a guerra, e, apesar das advertências da família, ignorava os entediantes pingos... pingos... e mais pingos da eterna chuva noturna de Seattle para sair e dançar sempre que havia oportunidade, Lucille, a "queridinha" da família Jeter, de natureza doce e ingênua, tinha um irmão e três irmãs mais velhas. Seus pais, Preston e Clarice, eram, como a maioria dos residentes negros de Seattle nos anos 1940, homens e mulheres que imigraram para o Oeste em busca de uma vida melhor, mas que haviam se decepcionado. Nascido na Virginia, Preston Jeter teve educação, mas poucas oportunidades. Trabalhou por diversas vezes como mineiro ou estivador. Sua mulher, Clarice, que nasceu em Arkansas, provia a tão necessária renda familiar esfalfando-se como faxineira e empregada domestica. Às vezes entravam em cena alguns cheques beneficentes. A religião pentecostal era o alicerce e também a vida social da senhora Jeter. Ela se preocupava e rezava por Lucille, cuja saúde sempre fora frágil. Lucille tinha tendência a se estressar. Ao ver aquela linda menina mulata agitar os pés e rir ao ser lançada para o alto enquanto dançava, Al Hendrix sentiu-se cativado. Será que ela jamais se cansava das luzes brilhantes e dos ritmos animados dos passos de jazz? Lucille adorava música!
Mas aquelas emocionantes noites na pista de dança não durariam muito tempo: semanas depois do primeiro encontro do casal, Lucille apareceu grávida e teve de se casar às pressas com Al, de 22 anos, um atraente — se não belo — galinho garnisé de pouco mais de um metro e meio de altura. Lucille disse à mãe que tinha gostado do jeito de Al sorrir para ela. O jovem marido era um cidadão norte-americano criado em Vancouver, British Columbia, que se estabelecera em Seattle vários anos antes para tentar a sorte como boxeador peso-leve no concurso Luvas de Ouro. O pai de Al, Ross Hendrix, natural de Ohio, tornou-se policial em Chicago, mas, por fim, numa estranha guinada, empregou-se como contra-regra de uma companhia de vaudeville. Casou-se com uma das dançarinas da trupe, Nora Moore, cuja mãe era uma índia cheroqui pura e o pai, um irlandês. Nora e Ross desistiram de viver viajando e resolveram começar vida nova em Vancouver. Não tardou muito e Nora deu a luz duas crianças, uma filha e James Allen Hendrix, conhecido como Al. Como sua educação fora interrompida no sétimo ano, e ele não estava preparado para um trabalho mais especializado, Al voltou-se para o dom herdado da mãe e passou a ganhar alguns dólares aqui e ali em concursos de dança. As especialidades dele eram sapateado, jazz e improvisações solo. Embora mais tarde se referisse a si próprio como membro de uma importante família do show business, sua mãe, após deixar o vaudeville, trabalhava por muitas horas na cozinha de um restaurante em Vancouver. Quando adolescente, Al também trabalhou como garçom nessa cidade. Ao se casar com Lucille, Al talvez tivesse apenas três coisas em comum com a esposa de 16 anos: ambos eram os filhos mais jovens de suas respectivas famílias, os dois adoravam dançar e tinham um filho a caminho. Poucos dias depois do casamento, em 31 de março de 1942, Al despediu-se de Lucille com um beijo. Convocado para o Exercito, foi enviado para Oklahoma, a cerca de 2500km de distância, e de lá para a Geórgia.Lucille mal completara 17 anos quando deu a luz o primeiro filho, Johnny, em 27 de novembro de 1942. O parto ocorreu na casa de Dorothy Harding, uma grande amiga de Dolores, a irmã de Lucille. Parentes e amigos acharam engraçado que aqueles dois baixinhos concebessem um bebê tão gracioso e longilíneo.
Criar uma criança não era brincadeira. Lucille não estava preparada para enfrentar a transição de ex-colegial para mãe. Por causa da confusão reinante no Exército ela nada recebia do pagamento de Al. Não muito tempo depois do nascimento de Johnny, Preston Jeter morreu de um ataque do coração, e Clarice herdou muitos problemas financeiros. Ela amava o filho de Lucille, mas não podia cuidar dele e ainda trabalhar fora cinco dias por semana. Clarice e Dolores estavam muito preocupadas com o bem estar de Johnny, que ficava de lá para cá num círculo de parentes e amigos, e às vezes até de gente estranha, em residências de Seattle e das proximidades. Johnny nunca sabia ao certo quem "se encarregaria" dele a cada semana — e essa expressão permaneceu para sempre em sua memória. Dormia sobre travesseiros, em cestos e nas camas dos outros. Um berço de verdade foi um luxo que poucas vezes Johnny pôde experimentar. Lucille flutuava pela vida de Johnny, a mamãe que ele tanto adorava, embora não pudesse sustentá-lo ou tomar conta dele por mais de alguns dias seguidos.
Quando estava com quase dois anos e meio, o menino foi levado por uma conhecida de sua avó Clarice. Essa mulher então adoeceu de repente e morreu. A irmã dela foi da Califórnia a Seattle, onde viu o pequeno Johnny e se encantou. Aquele foi um encontro do destino, e, embora depois ele acabasse por esquecer o nome daquela mulher, ela jamais saiu de sua lembrança. A mulher se dispôs a tomar conta do menino na sua residência em Berkeley, Califórnia, durante a guerra. Lucille não se opôs. Johnny vivia agora numa casa mais bonita, um bangalô simples, a algumas quadras do campus da Universidade da Califórnia. Ali ele se sentia confortável e seguro, e pode desabrochar sob o afeto e os cuidados da mulher que o resgatara, sem mencionar as atenções da filha mais velha dela, que tinha cerca de 20 anos, e de duas alegres adolescentes. Mais tarde, Johnny iria lembrar-se de quanto gostava que lessem histórias para ele, que ficava sempre ávido por ouvir mais uma. O vocabulário de Johnny aumentou muito durante essa feliz trégua na insegurança de Seattle. "Elas me chamavam de pequeno tagarela", disse-me ele sorrindo com essas antigas lembranças.Al Hendrix nutria certas dúvidas quanto ao seu casamento, ainda mais depois que ouviu falar que Lucille tinha um caso com outro homem. Pensava em se divorciar da jovem esposa. Algumas semanas depois de receber baixa do Exército, no final de 1945, viajou até Berkeley pela Costa Oeste para ver o filho pela primeira vez. Johnny não foi capaz de relacionar a fotografia de seu pai uniformizado, exibida com destaque na sala de estar, com o jovem sem uniforme que agora o examinava. Al permaneceu por alguns dias com os anjos da guarda de Johnny, conheceu os vizinhos do garoto e depois, quando o menino parecia acostumado com ele, embrulhou as coisas do filho e ambos embarcaram numa exaustiva viagem de trem por quase 1.300km de volta para Seattle. Anos mais tarde Johnny lembraria como chorava e soluçava quando aquele homem pouco familiar, que agora ele devia chamar de pai, quis discipliná-lo no meio da viagem: "Quero ir embora desse trem! Quero ir para casa. Deixe-me ficar em paz, quero minha familial!"
"Eu só berrava", ele me disse. “Sabia que elas me amavam, que iriam sentir minha falta."Embora os detalhes tenham se esvaecido, Johnny jamais esqueceu daquela família substituta. "Aquele foi como um pequeno sonho aconchegante em minha cabeça", diria ele já adulto.
Quando Johnny estava para completar quatro anos, o pai resolveu mudar legalmente seu nome para James Marshall Hendrix. Incomodava-o imaginar que Lucille tivesse dado aquele o nome ao filho por causa de algum namorado. Disseram ao menino que ele passaria a ser chamado de Jimmy. Isso o perturbou e confundiu, mesmo porque vinha treinando pronunciar e escrever "Johnny" em um livro infantil de alfabeto que recebera de presente em Berkeley. "O garoto", como muitas vezes se referiam a ele, tinha nomes demais. Sua tia Dolores, a irmã preocupada e protetora de Lucille, já o apelidara de Buster. Mais tarde, Johnny/Jimmy referiu-se aos primeiros anos de sua vida como "cheios de confusão". E não era fácil para ele conversar a respeito de suas lembranças da infância. Houve um período, antes de ir para a escola, em que ele, a mãe e o pai viviam todos na pequena casa da tia Dolores, como parte da própria família dela, que se tornava cada vez maior. "Tia Dolores procurava sempre melhorar as coisas", disse ele. O casamento dos Hendrix era uma união intermitente. Vez por outra, para afastar Jimmy da crescente tensão entre os pais, mandavam-no para o outro lado da fronteira, em Vancouver, British Columbia, a fim de passar curtos períodos com a mãe de Al, Nora Hendrix. Em janeiro de 1948, quando Jimmy tinha seis anos, seus pais tiveram outro filho, Leon. Nem um ano se passara, e Lucille deu a luz um terceiro menino, Joseph. Lucille sentia-se presa numa cilada. Ela era muito jovem para ser mãe de um filho, quanto mais de três. Não podia suportar que a amarrassem. Al ficava cada vez mais mandão, temperamental e controlador com o dinheiro, sempre um problema para muitos habitantes do bairro central de Seattle. Não havia mais amor ou passos de jazz para aquele casal.O pai de Jimmy estava sempre a lhe dizer: "Saia do caminho", "Não faça bagunça", "Não seja atrevido." O menino logo aprendeu que ficar quieto e ser obediente de vez em quando evitava as desagradáveis trocas de agressão em voz alta. Al lhe dizia: "Essa mulher e uma vagabunda.” Jimmy odiava ouvir o pai falar mal de sua mãe, assim como se arrepiava ao vê-la embriagada, trôpega e trêmula. Al também não era nenhum abstêmio, e muitas vezes Jimmy soluçava sobre o velho travesseiro, sem conseguir dormir enquanto explodiam brigas horríveis a poucos metros de sua cama. "Às vezes", diria Jimmy mais tarde a um amigo, "eu ficava lá, perguntando a mim mesmo: ‘Quem sou eu? Por que isso está acontecendo? O que posso fazer?"’ Numa noite digna de pesadelo, Lucille partiu para nunca mais voltar. "Meu querido Jimmy", disse ela ao filho, "tenho de fugir disso!" Para Jimmy as palavras e as lágrimas da mãe permaneceram como uma lembrança indelével. O casal se divorciou em dezembro de 1951. Al requereu e obteve a custódia dos filhos. Providenciou, como desejava, que Joseph fosse "criado fora". Al preveniu Jimmy e Leon para que Ficassem longe de Lucille. "Ela é uma bêbada, não vale nada!"
"Não vale nada." Essas palavras também perseguiram o menino — que veio a se tornar o homem Jimi Hendrix — pelo resto da vida.
Texto retirado do livro “Jimi Hendrix: A Dramática História de uma Lenda do Rock” (The Man, The Magic, The Truth) por Sharon Lawrence, Jorge Zahar Editor Ltda.

Jimi Hendrix - Am I Blue







































